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A última carta por escrever

 Meu amor,


Só me explicaram a palavra amarrar, porque desamarrar levava tempo a mais a existir até se tornar numa palavra que pudesse eu escrever.
E eu quis escrevê-las ambas num caderninho azul que tinha rosas anãs brancas na capa, aquele mesmo que me ofereceste no mais estranho natal de todos, até descobrir que sozinho, nunca o conseguirei fazer. 
Há tanto silêncio nas minhas mãos quando as tento escrever. É como se duas crianças tivessem morrido ali, esparramadas de tédio, naquelas pálidas linhas azuis por as merecer. 
No fim do quarto ergue-se uma montanha de roupa por lavar, cem livros, um lápis, quinze molduras vazias, um quadro de lousa, mil poemas enguiçados, três trapos ranhosos, uma carta, a tua carta, esta carta, dez garrafas variadas, vazias, um canivete, um coração partido, um copo meio-vazio, setecentas beatas de cigarro, o periquito prestes a falecer, duas maças e um caroço. 
Mais além está o gato, que brinca com as fronhas da cama as tuas cuecas e os fios soltos das palavras impressas nas camisolas. Saltou no ar, atrás de um ponto final. Quase partiu o pescoço!
No cubículo ao lado congelo outras palavras ao lado da cerveja e do final do nosso eterno jardim de verão.
Pois essas palavras já são memórias, deixo-as ali fechadas a ver se se escrevem sozinhas com a força do Sansão. 
Acabou-se. Fechei actividade. Escrevi duas ou três linhas ao sindicato dos esquecidos a cancelar o pagamento das quotas.
Confesso: Até deixei morrer o periquito...
Vou tirar o caderno debaixo deste cemitério e morder os lábios devagarinho. Vou puxar os cabelos um a um até ficar careca, apertar os mamilos até fazer sangue, pendurar os últimos anos num armário, tirar as botas,
e ficar nu. 
Deixarei por fim de ser assim, esquisito.
Vou tirar o silêncio da garganta e gritar...gritar...gritar, gritar muito baixinho para não perturbar a música alta dos vizinhos. Sentei-me aqui por demasiado tempo, meu amor. Ardem-me os olhos, morrem-se-me as mãos aos poucos, quis regatear todas as iras antes delas chegarem, mas não tenho mais nada que saber sobre o que é infinito. 
Ficarão as palavras que me foram explicadas, escritas, mas por dizer na tua carta. Esta mesma carta. Pelo meio estarão todos os espaços em branco como tantas plantas que nem nascem sem terem razão para isso. 
Andei demasiado tempo num círculo insensato; da janela para o caderno e do caderno para os olhos, os olhos de volta à janela, e já não vislumbro mais nada que não seja assim, vazio e mortiço. 
Como acreditei em mistérios felizes, esqueci que a vida se faz de contas, roupa suja e brincadeiras perigosas. 
E agora estou aqui com o Sansão, e com todos os vicíos que nunca quisseste amar a dois. 
Eu, que me amarrei a um tempo que nem era possível de existir, consegui o milagre de o deixar acabar. 
Acabou...acabou...Pumba! Acabaram as saudades-perpétuas, as frases cortadas com a tesoura das unhas, os comboios da noite, as saladas japonesas, o vento quente, os poemas escritos como aviões em pleno ar...
Acabou amor, acabou. Conta até cinco até eu te deixar.

Carinhosamente,
o teu Ex-poeta privado.
 


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