Avançar para o conteúdo principal

O preso 45



Na sua grande maioria, as pessoas raramente confessam, abertamente, as coisas mais daninhas que nascem de dentro dos seus filhos. 
Em conversas mais dilatadas com amigos, que são também pais como eu, e que até vão criando rebentos da mesma idade que os meus, fico sempre com a ideia que alguns são tão pacíficos que até os devem aborrecer de morte, e outros, tão completamente selvagens que até a mim me assustam. O que dificilmente consigo lhes arrancar nestes debates, é o meio-termo da verdade absoluta. E isto porque se convencionou como algo de muito mau-grado, dizer a outrém, amigo ou não, a verdade, verdadinha sobre a filharada. - Prece mal ele saber. -
"O meu filho é.." sempre isto ou aquilo, muito mau ou muito bom (normalmente é excelente), nunca encontrei nenhum que me declarasse em confissão que aquele filho, o Arnaldinho, míudo de quinze anos, bigodinho à chico fininho, e modos à Hitler, é secretamente um barão da droga em miniatura, todos os dias entre as 4 e as 5 da tarde, por trás do pavilhão C. Que a Quica, a mesma que adormecia de cabeça em cima da sopa, e saltava de felicidade ao ver a ovelha Choné, se anda a vender por diamantes de fancaria, dentro do armário das bolas no ginásio.
Ninguém diz estas coisas a ninguém, nunca, mas que podem acontecer fora do meu imaginário, podem sim.
Até é provável que exagere aqui, que sucumba demasiado ás hipérboles, é. Contudo isto irrita-me sobremaneira. Porque, se não existem filhos perfeitos, (ainda não conheci nenhum dentro do meu círculo), a maior parte destes vivem com as cabeças dentro de uma nuvem. Todavia, necessariamente, também não poderá existir perfeição na paternidade que se encontra no outro lado do espectro. - "Não, não.." insistem estes, "o meu filho é..." e a ladainha perpetua-se na auto-mentira ad infinitum.
Pois que venha a tempestade, que chova verdade a cântaros; o meu filho é repetente no 10º ano, e hoje fui chamado à escola para discutir com o director de turma o curso de acção para se resolver o seu problema de falta de assiduidade, de comportamento e de vontade na progressão escolástica, no geral.
Inclusivamente, hoje de tarde, (primeiro dia de férias de natal) o meu filho irá cumprir um castigo comunitário compulsivo, no campus da escola, por ter incendiado uma folha de alumínio dentro do pavilhão de ginástica, só para ver que cores de fumo dali surgiriam. - Diz que nem foi ele, que se atravessou na linha de fogo para defender um amigo mais fraco. - Até me poderia sentir orgulhoso por este seu acto heróico, mas a verdade é que ele diz o mesmo quando acaba com o meu pacote de bolachas favoritas, sem admitir tê-las comido todas.
Enfim, tem dezasseis anos, e isto diz muito para a explicação cabal deste texto. Por tudo, pelas más notas, pelo mau comportamento, pela falta de comunicação, pelo seu niilismo face a um futuro que nem lhe apetece muito pensar, vejo-me confontado com a decisão de ter de o manter quase em prisão domiciliária, pelo período deste interregno. Efectivamente, e sem bem compreender porquê, transformei o meu filho numa espécie de José Sócrates em ponto pequeno, ainda que nem beneficie da perrogativa de uma possível inocência. (Treta!) - Como a adolescência de agora me assusta tanto, não encontrei outro remédio para isto, transformei o meu lar, num estabelecimento prisional natalício, e o meu filho, no seu único ocupante. 
A única diferença é que, admito os meus receios, assumo a minha incompetência, e, exponho-a aqui, aos olhos de todos, na esperança de algum bom conselho que me possa ajudar, a mim e a ele. Tudo o mais, só tempo resolverá, a mal ou a bem.


Mensagens populares deste blogue

Jorge Machado

Ninguém nunca sabe ao que vem, viver é um ensaio. Dão-nos o que fazer e coisas para que acreditemos e depois ficamos à solta. Dão-nos o nós e a vida de barro, mas há quem faça o que bem entende gostar de fazer. E até há quem o faça muito bem. Ninguém nos explica direito, em pequenos, que as coisas mudam e partem e ausentam-se, e que antes de aqui chegarmos, já o seríamos, mas que tudo se cria e que tudo se nos pode escapar. Carecemos de um olho arguto e atento para captar o que mais conta, até à eternidade. Eu, por boa sorte, tenho um amigo, que por sorte também é o meu melhor amigo, que entende muito bem que há tempos de equívocos, de medo e de combate. Que o mundo, de tão duro e belo até ao fim é mais colectivo se for partilhado em imagens, que nos deixem estarrecidos. O Jó sabe disso de querermos ser felizes, nisso somos mais que irmãos.  E desde catraios entendi nele, o seu lugar exacto. O seu carácter metódico, rigoroso é a pedra de toque da sua vida e da sua paixão, a fotografia. …

Cinco minutos

Assumi escrever isto em cinco minutos, sem tempo para hesitações. É só para esvaziar, para não me deixar soterrar pelas avalanchas da inadequação.  Os meus olhos saltam perdidos entre os grandiosos eventos estivais, apanham respingos das fontes iluminadas com os rostos eleitorais, entram pelas bibliotecas dentro, todas maiores que os meus medos. Param nos cafés lotados de soberba, cheios de viciados em exposição, a transbordarem pelas esplanadas, parecem todos mais cansados que eu com as suas roupinhas de férias.  Tanta feieza e formosura juntas que já não tenho certezas sobre como saber separa-las. Ou se devo. Ou se preciso fazê-lo. Ninguém me mandou andar por aqui, ao acaso, a procurar personagens absurdos. Aqui fora, todas as montras são íntimas, e ninguém mostra vergonha de nada comprar. Aqui fora vêem-se os rostos, olhos nos olhos, enquanto rejeitam de frente. Dói, mas é melhor assim. Durmo e tenho sonhos estranhíssimos em que ajudo pessoas que parecem nem precisar de mim. Afastam-s…

As Crónicas do Senhor Barbosa III

O Senhor Barbosa acredita que já nada o pode magoar. Nem o desprezo passado, presente ou futuro, nem o cão esgalgado da vizinha, de dentes longos, nem a hesitação insípida do amor mais ou menos alvoroçado, nem a morte, nem nada. Nada mais lhe poderá acontecer de tragédia inventada. Já outros a inventaram por si. Olha para os reflexos e sabe que isto é de uma tal arrogância que até lhe faz doer os dentes postiços. Ri-se e prossegue a acreditar na sua recém-criada fortaleza inexpugnável. Mas, o Senhor Barbosa não fecha os olhos debalde, e sabe que, em tempos difíceis, às vezes é preciso morder a laranja para a poder descascar. Nada significa o que quer que seja até ao dia seguinte, altura em que voltamos a fazer contas à vida. É quando o riso cessa. Sabe isto e mesmo assim ri. Porque não? Está tão bêbado que outra coisa não lhe ocorreria fazer. O que é difícil é ultrapassar a espera pelo dia seguinte. Ali estava outra vez o ruído. Aquele ruído frio, cortante, vertical, que tão bem conheci…