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Efeitos Secundários





Cinco e meia da manhã.
O homem sai pr'a rua com uma mosca nos sentidos.
Tem um andar incerto. Faz zigue-zagues com os olhos.
Cai desamparado a todos os quinze passos.

Olha – dizem-lhe - 
recorda-te sempre de estenderes o que escreves no pátio lá de casa,
ou na varanda lá de casa, ou no jardim das traseiras, no quintal lá de casa,
no corredor geminado, 
estica-as aí, estende-as aí, muito direitas
um pouco antes de saires para a rua.
Se as fechares em ti, as palavras não ganham altura,
ficam rasteiras, miudinhas no escuro, 
as palavras ficam incógnitas dentro de ti
a ganharem cerume.
Depois, 
já ninguém as quererá ouvir,
e nunca será por nem poderem.
O homem bateu três vezes com força na cabeça,
e por cada vez que batia, 
saía-lhe um sarro castanho-negro 
e por cada batida, brotava
uma palavra nova e endiabrada.

Vês - dizem-lhe - 
fechadas, as palavras endurecem-te o ouvido
fechadas, as palavras ficam duras
precisam de sol na pele
precisam de céu e de chão
e de alguém que as ponha nuas.
 Despe as palavras sem medo, despe-as.
Deixa-as ser livres, vagabundas
monta-lhes um sorriso nos lábios. Canta-as.

E o homem despiu-as e o homem cantou-as, 
sozinho.
Sentiu febres altas e soltou labaredas nuas
ali mesmo, a céu aberto
no chão do parque de estacionamento,
mas cantou sim, cantou como lhe fora pedido.
A ele, mais lhe apeteceria
esperar a passagem dos efeitos secundários
deixar a luz crescer-lhe devagar pelos olhos 

durante a manhã.
Não queria ter de lidar com nudez àquela hora.
não queria limpar os ouvidos
ou esticar lençóis
não queria sorrir com a boca suja
ou abrir os olhos explosivos.
só queria ser
ser um pássaro normal, daqueles discretos de penugem.
Um pássaro mudo. Surdo. Cego.
só feito de asas.
Em vez de querer, cantou. 
Seguiu pelas ruas aos trambolhões, a cantar
sem pressa de chegar ao fim do verso.
Parou. Tentou falar,
as palavras tornaram-se difíceis de articular, 
enrolavam-se na mecânica da língua seca.

Ouve - dizem-lhe - 

ouve a multidão, suavemente, com paciência.
trabalha misteriosamente, solta essas palavras 
continua a cantar sem esperares pelas palmas,
sente a fome e levanta-te.
Fuma. Bebe. Escreve todas essas palavras no caderno da tua casa
Deixa de ser sonâmbulo, mártir. Deixa de ser professor de hipnose,
artista de variedades, homem-rã... ave do paraíso.
Torna-te operário especializado em trabalho não-especializado.
Um operário que canta, que canta sempre.

O homem encolhe-se, quase murcho. 
O homem segue de esquina em esquina com uma mosca nos sentidos,
pensando:
as palavras querem-se ao sol, a poesia quer-se ao vento.
Sem querer, o homem, já não era um Homem!
Sem chegar a ser um pássaro.

Sete da manhã.
A luz do dia tenta apanhá-lo de surpresa, mas ele resiste-lhe.
Cospe-lhe na cara, pragueja-lhe e bate-lhe três vezes na cabeça.
e de cada vez que batia, mais luz dela saia.
O homem desiste. O homem canta.
Senta-se. Levanta-se. Senta-se de novo.

Sentes este cheiro? - dizem-lhe - 

Sorri, sem se comprometer, sem abandonar as palavras que cantava
sem querer.
E já nem quer saber do resto do dia.
Agora, só sabe que saiu de casa um homem,
e voltou um poeta!


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