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Fazer as pazes com qualquer coisa



Cada vez mais sinto que estou em dívida com o mundo. Devo-lhe o meu melhor tempo, todo o meu empenho e criatividade. Desisti de desacreditar em tudo, o que me anima os dias com um estranho bafo acolhedor.
Trabalho sem resultados mensuráveis de proveito ou de êxito porque acredito que aquilo que faço importa, e não para encontrar um papel de protagonista num lugar atarracado, superlotado de secundários como eu. Leio pela excitação de descobrir que muitos são melhores do que eu, para aprender a ser melhor do que poucos e excelso superior de nenhum, de ninguém. Ler para existir num rasto de excelência, como um galgo na sua pista, e não apenas para dizer que o fiz, ou para contar quantos mais lenhos consigo riscar no cinto infindável dos livros que tenho por ler. Apaixono-me constantemente, porque apesar e mesmo além de toda a parca importância do imediato da paixão, apaixonarmo-nos, atira-nos ao ar onde vivemos vidas de bolhas de sabão, que sucumbem, explodem e reformam-se no dia seguinte, maiores e mais belas que antes. 

O amor deixo para o futuro, que é coisa de longo prazo e não pode ser nunca apenas uma guerra contra a solidão. 
Vou a lugares estranhos, e outros mais familiares, e perco-me até em ambos, muitas vezes de propósito. Faço-o para expandir o meu mundo interior, não para tornar este mundo mais pequeno no fundo de um álbum de fotografias. Trato de quem me quer bem, e de tempos a tempos, esforço-me para contrariar o mais básico desdém de ser humano, e até trato bem aqueles que nem conheço. Faço-o, não por ser boa pessoa (não o sou) mas porque quero ser, e sinto também que, essa entrega irracional, ainda que esporádica, de sermos pelos outros, mais do que por nós mesmos, é a pedra que sustenta e quebra a podridão enraízada do ego superior, o ego só, que insiste em ser uno mas nunca consegue se aquecer no fogo do seu próprio calor.
E, depois de tudo isto. Depois de ter tudo bem arrumado e estruturado cá dentro, posso ter medo na mesma, e tentar fugir de tudo, claro que posso. Posso permanecer escondido atrás do meu medo e lamentar-me de todas as dificuldades que tenho pela frente. Posso até aguardar ansioso pela revolução improvável que me venha acudir de todos os males que para mim próprio construí…mas, no fim, tenho apenas uma decisão para tomar: O que raio irei fazer da minha vida?

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