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Negras terras longe de Deus e de tudo.



Santifique-se a ignorância, pelo amor de tudo! É o único caminho para longe da loucura. A pobreza espiritual chegou a níveis tão alarmantes, que qualquer pessimista feroz, é imediatamente escorraçado, ostracizado, repelido, esquecido ou eliminado da sociedade. Isto é tão gritantemente comum, que até chateia. - Schopenhauer chamou-lhe "a vontade", eu estou mais com o Darwin, e chamo-lhe "evolução da espécie". - Aquilo que se pretende como sensibilidade humana há muito que deixou de ser um dialecto comum. Puseram fim aos solilóquios profundos, e pensar tornou-se uma nódoa quando exposta a um público específico. No fim, ganham os mais fortes, até podem ser os alemães, ou os grupos de pressão mais numerosos, e, ainda que, no caso humano se descarte a sua característica mais relevante; a inteligência - a evolução, essa grande cabra insaciável, não se detem por nada, e ai de quem não se adapte, resta-lhe um só caminho: enfiar-se num saco e morrer.


São sempre as boas retóricas que contam, ou as boas palavras que lhes darão origem, ou não fossem estas invasões napoleónicas dos novos deuses bem comportados, bem-falantes e bem-escreventes a conquista derradeira destes novos maus tempos. - Maus, assuma-se, do ponto de vista de quem não alinha com esta nova verdade.
Porque a verdade, fugindo à luz que a cega, perdoa-lhes todas as gabarolices e petulâncias, apenas e só, porque estas criaturas, são do domínio da felicidade, salvo seja. E o novíssimo Homem-deus-digital-ignorante tem de evoluir para ser feliz, custe o que custar, e até forçar um bom-sorriso vez em quando, esgalhar a cabeleira para o auto-retrato, para agradar às miúdas e aos indecisos. Serão estes os novos messias que nos trarão a oferta da cultura, do sexo e do dinheiro livres de custos.
Este novo herói, encharcado em vaidade e cultura até aos ossos, jactante de novas intenções, avança sem parar, altivo, e sem receio de mansas retaliações dos hunos façanhudos, os mal-dizentes por ressonância, que deliberadamente se atiram de cabeça contra as paredes. - Que podem estes fazer contra o progresso, excepto iso? - O herói-deus-pseudo niilista, é um vencedor por excelência, já nasceu assim no meio dos outros vencedores, e nunca se amedontra ante duas ou três varadas do marmeleiro dos derrotistas. - Dói-lhe em algum lado, mas nem sabe bem onde esse lado fica, pois nem sente dor, é todo ele feito de bem-intencionada carne renovada. Santificado seja!
É de louvar mesmo. Bem os haja. Já eu, que critico como quem solta gases, conheço o meu lugar neste novo mundo de bons-heróis; sou o merdas derrotista, o fatalista derrotado, ou ambos, assim direito ou do avesso, a ordem pouco importa, o que importa é que sei disso. Eu sei! Quero ter certezas nas minhas derrotas, sentir-me minimamente engrandecido pelo meu devido lugar nestas longas terras negras. Quero lá agora ser responsável pelas tristezas dos outros. Livra! - Os outros também podem ter os seus próprios ideais de heroísmo sem terem de pedir vénia para falarem. Eu não pedi. E aqui está. E tem estado nos últimos quatro anos. Na internet, existem tantos speakers corners, como poios de merda de cão na relva em frente à minha casa. Há lugar para todos, desde que todos se remetam aos seus devidos lugares. Se os ultrapassares, és tu quem acabas por levar na espinha, e a ti irá doer-te concerteza, pois sabes de cor, todos os sítios das tuas dores passadas.
Demais a mais, o que esperavam seus tolos? É isto a evolução. Tem de servir um propósito que sirva a maioria, e a maioria quer ser feliz, ainda que não saiba bem porquê. Não é suposto o Homem procurar o seu próprio sofrimento, seja este poético ou auto-erótico, deve sim, sentir-se seguro com a certeza de que este lhe será imposto por outros. E muito bem imposto, diga-se de passagem. O retorno deste novo fascismo moral era expectável, surge sempre que o optimismo ingénuo está em alta, e a igualdade em extinção.
Portanto, sim, dogmatize-se a estupidez liberal, disfarçada de seja o que for. São estes que conferem autenticidade aos novos regimes. Que nunca se resignam às sextas-feiras, em dias feriados ou em tempo de férias. Esses mesmos. Os que validam a visão maniqueísta, segundo a qual, a forma os faz indefenidamente testemunhas, e isso é o que mais queima por dentro.  Saber-se responsável e ainda assim mostrar-se confiante. Eu não! Eu sou um derrotado gordo e infeliz, cheio de culpas. Foi a isto que Jean-Paul Sartre chamou de o "nada". - Eu sou o NADA, longe dos deuses e de tudo, só a observar aqui no meu canto, e a escrever como um louco indigente.
Vá lá. Tudo isto é pura estupidez sem bases sólidas. Sublime-se o avanço cego dos remorsos, dos olhares compassivos, da caridadezinha, o despeito pela má nutrição dos rezingões. Dar uma mão a quem não pede nada, tornou-se agora um mero anexo geográfico ao alcance de todos. Basta criar um evento ou tomar um banho gelado. Sim. Enredem-se nas malhas da lógica do martírio, e aguardem pelo que vem a seguir. - Surpresa seus caguinchas! Agachem-se e encaixem a direito por aí dentro, seus cretinos simplórios. Como se esperassem estar à altura de tanta ignorância. Tolos! - Sim, adorem esses belos eternos vanguardistas, esses meninos e meninas dos slogans sumários contra a propaganda imperialista. Deem-lhes rédea solta, ofereçam-lhes canções inspiradas, poemas, largos cartazes sarcásticos pelas ruas, eles merecem, caramba! São o fruto da evolução da espécie, e vocês, nós, meros desperdícios de espaço em terra de novos deuses.



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