Avançar para o conteúdo principal

Tão pequeno que é amor.

Somos partes pequenas e iguais, vivemos engrenados enquanto servimos o maior dos mistérios, até que se esqueçam de nós ou que este nos falte. Aí, então, fazemo-nos de grandes, insuflados gigantes rídiculos de passos largos, sem rumo. Porque deixámos de ter um sítio seguro onde funcionar.
Foram esses os inventores do amor, sim, esses! Os enormes vazios que erram agora sem destino. Perdidos. Criáram-no um dia, no dia em que se fartaram de ser pequenos e sem importância. Depois, tudo se tornou mais difícil. Perderam-se pelas cidades em magotes de gente cheia dos mesmos iguais anseios. Impossível de se vislumbrar de tão vasta altura. Enormes peças imperfeitas de gente.
É que não se pode amar sem perder o medo desta mecânica. Corpos juntos, insignificantes, mas eternos. Sem escolhermos a coragem da geometria. Ruas que cruzam ruas, esquinas que dobram vidas, jardins onde os nossos corpos passeiam e se escondem, embaixo dos verdes tectos onde o amor cresce e se alimenta de noite, sem nunca ser visto.
Igualmente importantes são as árvores pela cidade, como também são os candeeiros de rua, e a cor dos contentores, a inclinação das vielas e os desenhos losangonais na calçada. Tão iguais como a brevidade de um beijo ou o entrelaçar de um par de mãos. Somos a carne e o pó soprado pelo vento, a ínfima centelha que deixámos crescer enquanto nos fizer sentir pequenos, irreconhecíveis, anónimos, felizes.
Somos tantos que só assim pareceremos maiores que os gigantes criadores que desbarataram o amor pelo receio de não serem vistos. E pode muito bem amar-se só por estarmos aqui. Por nos sabermos aqui. Invisíveis. Mais não será preciso inventar-se.

Comentários

Mensagens populares deste blogue

O Homem-Espelho no 13 de Maio

 "OLHA O PORCO, O PORCO NO ESPELHO!" Por favor não me negues mais, estou cansado de não existir, de não importar. Ontem mesmo nem quis saber de me limpar por trás. Dir-se-ia que é por estar tão gordo que a minha mão que limpa a merda já não consegue atingir o esfíncter de onde esta surge. (baseado em uma história real) Fui existir outro dia com uma crusta de merda nas culotes intoleráveis. Uma fila castanha de aeroporto onde só as moscas aterram. Esfrego e esfrego e é só papel atrás de papel poluído por esta inabalável frustração. O cheiro da nulidade tornou-se tão insuportável pelas três da tarde que me abriu as narinas à epistemologia desta acção. Daí em diante evitei tomar banho, apenas para que o meu próprio odor pudesse emergir do fedor desta ciência inabalável. Por favor voltem, por favor todos vós retornem...Eu limpo-me! - Sou negacionista, sou hipócrita, sou carente....sou tão carente! Guincho a todos os vidros que encontro na esperança que me reflitam, nenhum devolve...

Acerca de Anderson's...

Hollywood é um gigantesco cadinho demente de fumos e fogos fátuos. Ali se fundem todos os sonhos e pesadelos possíveis de se imaginar.  Senão, atentem, como mero exercício, neste trio de realizadores, que, por falta de melhor expressão que defina o interesse ou a natureza relevante deste post, decidi chamar-lhes apenas de os " Anderson's ". Cada um mais díspar que o outro, e contudo, todos " Anderson's ", e abundantemente prolíficos e criativos dentro dos seus géneros. Acho fascinante, daí querer escrever sobre eles e, no mais comum torpe da embriaguez, tentar encontrar alguma similitude entre eles, além do apelido; " Anderson ". Começarei por ordem prima de grandeza, na minha opinião, e é esta que para aqui interessa, não fosse este um blogue intrinsecamente pessoal onde explano tudo e mais qualquer coisa que me apeteça. Sendo assim, a ordem será do melhor para o pior destes " Anderson's ".  O melhor : Wes Anderson .  O do meio : Pau...