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Um beijo no escuro




















Quando alguém como eu se apaixona,
as equipas do tempo fazem escalas
de propósito, pelo esquecimento,
e a tristeza enche-se de pequenos milagres.
Até o medo ganha coragem,
e nem a morte sai da sua cova.
A paixão espontânea é um prenúncio grátis,
uma janela aberta para a árvore da vida.
Um feito imenso,
um sentimento,
um frenesi de mãos e lábios e perdição,
uma proeza!

Quando alguém como eu se apaixona.
é uma bonança quase insuportável,
um exercício contra a má-sorte.
Vêm-se os corpos como eles são
ao contrário da vista que sempre os viu.
Abertos ambos na clausura do mesmo espaço,
existe uma distância de silêncios,
entre as tuas mãos e as minhas.
Uma fronteira de palavras por dizer,
entre os teus lábios e os meus.
E algo que brilha vez em quando,
entre os nossos olhos.

Quando alguém como eu se apaixona,
quer ser todos os homens que eu não fui,
e já não sou nem posso ser,
e isto por vezes nem é mudança,
mais não passa de mera inveja.
Mas não importa,
aquele tempo esqueceu-se de nós,
o tempo suficiente para sermos um,
fosse ele mais longo e seria para sempre.

É assim quando alguém como eu se apaixona.
um beijo roubado ao escuro.

Casimiro Teixeira




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