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Os Verões de Azurara.


Quando era novo parecia que o Verão fugia lá para fora, para trás da paisagem. Era todo um jogo que não precisava de rapidez. O vento sim, era igual, rápido, imediato e cheio de certezas, persistindo como ainda hoje o faz, vinha do frio norte, e ainda vem. Essa verdade é única e constante, e ainda me transporta para o passado sem querer, tudo o resto já se alterou, foi-se no fino levantar da areia, até à distância profunda do mar.
A praia de Azurara era o nosso cabo do mundo. Alegoricamente, o nosso paraíso ideal. Porque os grandes paraísos vivem dentro de nós. 
Tranquilos, mas sem perdermos um instante, aí rumávamos todos os dias. Os melhores amigos de sempre, antes da vida nos meter a todos por caminhos tão distintos. Convêm explicar que, apesar de amante incondicional de Vila do Conde, sou da outra banda do rio, nasci e cresci durante os meus melhores anos, no lado esquerdo do Ave, onde as bruxas faziam filhos tontos e os dias passavam devagar. Por essa razão, as minhas memórias de um perfeito Verão, ficarão para sempre aí enraizadas, naquela praia plana, de mar aberto e dunas urticantes, onde eu e os meus amigos nos demorávamos perdidos das horas, até que o crepúsculo nos apanhasse e nos mandasse para casa, muito contrafeitos. Chateados mas felizes, naquela felicidade de heróis a dias, que é assim boa só porque sim.
De todos os modos que imagine, a ordem torpe desses dias só as posso descrever como vantagens indestrutíveis. Como a música das eras, limpa de todos os defeitos e que não nos sai da cabeça, nunca. É um fenómeno raro, mas acontece com alguns lugares que nos fazem transcender a respiração comezinha. Cheios de coragem, nem protector nem nada, só pele, céu e aves do litoral.
Foram tempos mais simples, certamente, mas suponho que a simplicidade sairá sempre vencedora perante tudo. Éramos novos, bravos e bonitos, e podíamos viver a liberdade do verão isentos da presença castradora dos adultos, num quase alvoroço de assombros constante. Todos os medos de hoje não seriam mais que o fumo das nuvens de fim de tarde. Os primeiros sinais da inexorabilidade dos anos estavam longe.
Descíamos a avenida por trás do cemitério com as toalhas jogadas aos ombros, esvoaçantes, e sorrisos diversos de aventura nos lábios, corríamos soltos pelos campos de milho, ao longo da lezíria do rio, fugíamos dos cães malvados, dos donos dos cães, mais malvados ainda, corríamos ao encontro da intrepidez da nossa própria fuga, tão boa como a felicidade, só por ser boa, e mais nada. 
Deram-nos a vida ainda em barro, e nós moldávamo-la como queríamos que fosse.
A pé, ansiosos por rever os nossos sítios. Após o cruzar da pequena ponte arcada de cimento que lhe dividia as margens, sete passos largos bastariam para a galgar, era já tudo nosso, e quando a maré subia sem pedir licença, nem ponte nem nada, as toalhas erguiam-se altas sobre as cabeças, e cortávamos a eito o caminho submerso, tomando conta da frescura do rio com os nossos corpos, antes mesmo de alcançarmos a areia da praia e o mar mais além. Até parecia mais gratificante assim. Como se fossemos conquistadores diários daquele rio teimoso. Não tomávamos nota das horas das marés para nunca contrariar as boas surpresas. Sabia sempre melhor à vinda. O resto do caminho até casa parecia sempre mais revigorado.
Nos dias mais quentes, quando o estio ardente nada perdoava, parávamos para beber, água limpa e fresca como neve, do poço sobranceiro, ao lado do posto da guarda-fiscal, agora soterrado num nada e tapado hermético para que ninguém lá caia nessas boa memórias. Tão triste esta secura memorial forçada. Havia de ser proibido privar as crianças de hoje, de serem fundamentalmente crianças. Ou quanto muito, a criança que eu consegui ter a sorte de ser. 
Quando fui jovem os dias eram melhores, pois eram. Ninguém poderá contestar a frescura da liberdade contrapondo-a à dos dias de hoje. Tolices dirão, mas eu acredito nesses dias como os melhores de sempre. E é o poder dessas crenças exactas que nos torna melhores homens.
Melhores dias sim, tempos em que ser-se cachopo era construir involuntárias, todo um rol de lembranças que nos ficavam grudadas na alma para sempre, e aí perduram como este mesmo vento do norte, de hoje.
Aquela praia revelava segredos novos todos os dias, ainda que fossem os mesmos de sempre, nós não queríamos saber, nunca deixavam de nos maravilhar. O ajuntamento dos padres veraneantes, que ali estabeleciam colónia todos os verões, comos bandos de aves migratórias, montavam a rede de vólei num canto da praia, e o espaço passava a ser só nosso, começava o Verão para os retornados de Azurara. Ao lado, a dividir o doce do salgado, havia o pontão de pedras afiadas, onde os caranguejos se acoitavam aos magotes, tentando em vão escaparem das nossas mãos curiosas, lado a lado com os pescadores de canas indolentes e os mergulhadores acrobatas. 
Haviam também os jogos de areia, brincadeiras de destreza que inventávamos amarrando a toalha de praia às costas, éramos super-heróis antes de sermos velhos que só recordam. E os namoricos, Meu Deus!  - Os banhos de fim de tarde, ou no rio, ou no mar, ora no rio outra vez.. não haviam outros tão bons quanto esses, e nunca mais houveram outros iguais, ainda que os tentássemos recriar já em adultos. É que o rio ainda nos permitia lavar todo o sal do corpo a bel-prazer, e nós nunca nos cansávamos, nunca. Nunca descansávamos das dunas, excepto com elas. Estranhamente, ou talvez não, a voz do Rui Reininho esteve ali sempre connosco. Haverá amores-mais-perfeitos que os de Verão?
O pior de tudo, nem são as recordações sabem, mas a consciência dolorosa de as crianças de hoje, os meus, os nossos, todos os filhos de agora, não entenderem nada desta inocência. Isso é o que mais me custa digerir. Eu fui feliz sim, perfeitamente feliz, e agora, não lhes sei explicar como. Mas eu tento, eu bem tento...
É dessa praia, e só dessa praia que sinto saudade. E acredito que cada um de nós, terá a sua própria praia de infância muito bem enraizada aí dentro. A praia que nos recebia aberta todos os verões, e que era nossa apenas, mesmo sendo de todos, de muitos. Mas, como faço eu agora para a explicar aos meus filhos?

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