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Pensamentos Avulsos XXII


Só muito tarde pela vida dentro é que me apercebi que não preciso ter o que dizer sobre as coisas todas que passam pela minha vida. 
Há uma espécie de desassombro na meia idade que talvez nos faça dizer assim: “Gostei muito, não foi a coisa de que mais gostei na vida mas gostei muito e não sei explicar porquê, ou talvez saiba mas não me apetece encontrar as palavras certas, nem as incertas, e tenho muito jeito para as erradas, então não quero dizer nada, embora gostasse que as pessoas percebessem como é sentir o que eu senti". - E pronto, era só isto. - Um desconserto.

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(...)



O homem ia bêbado no comboio enquanto o dia nascia por trás dos quintais as casas alegres dormiam tão tristes na escuridão, e os gatos e os cães pelas vielas aos pares brincavam aos animais para louvar a deus ou aliviar o peito. Dentro de mim morria gente todos os dias,
por noites florindo sem apoio debaixo de uma redoma assim eu não me ajeito somente rastos de pó e cicatrizes tão belas incrustadas de mãos caídas, baças pedrarias todas confidenciais. A luz filtra-se pelas pedras sem razão e a insónia do fim retirou-me a força das pálpebras indefesas para falar. Lá fora, no escuro nas ervas daninhas, nos ramos nus, no que está acabado pousam pássaros minúsculos que são apenas, nunca perguntam o que está agora ou o que foi ou se chegará algum messias. Não pedem de comer, nem cantam são o que são em qualquer hora. Quando me levantar o céu estará morto e saqueado. Por dentro, serei sempre só um muro de gente de mim, que só morre e morre, todos os dias.
"Todos os Fogos são Fevereiro" Poesia - 2017



A necessidade de consolo é impossível de satisfazer