Avançar para o conteúdo principal

A voz de Deus


Se acaso não tiveram a boa sorte de assistir à chuva de estrelas de ontem, (eu não apanhei nada, mas o lugar também não era o melhor para o deslumbre) isto é exactamente igual. Ou, se quiserem, fechem os olhos, e será o mais próximo que conseguirão imaginar de tal celeste espectáculo.
"A Kissed Out Red Floatboat" e "Spooning Good Singing Gum" são dois títulos do álbum de 1988 dos Cocteau Twins, "Blue Bell Knoll's", que soam quase como itens de um menu em um restaurante chinês, mas evocam uma espécie de felicidade que se encontra na solidão de se estar a pescar em um lago de montanha, ou aquela emoção avassaladora de nos aproximarmos lentamente, de algum animal, sabendo que teremos de o fazer o mais calmamente possível, de modo a não o assustar. A observação relaxada de estrelas cadentes, encaixa-se aqui igualmente bem, como analogia.
Sobre a composição destas melodias quase imateriais, Elizabeth Fraser disse em tempos que: "é importante colocar-nos na direção da corrente certa, batalhando contra a noção de se ser demasiado esperto. Focando-te em criá-las, em vez de falares ou pensares demasiado sobre elas."
Acredito que seja mesmo assim, e que, a razão de as canções dos Cocteau Twins serem tão livres e naturais, dever-se-á muito provavelmente ao facto de Liz não possuir quase nenhum conhecimento teórico sobre música, ou a capacidade para a ler, tampouco.
Em tempos descrita como "A voz de Deus", o seu canto tem uma qualidade sobrenatural que contraria convenções e assegura não haver comparação entre ela e outras vozes. Isto poderá explicar a sua vontade de cantar sons, de criação própria, em vez de palavras, procurando conceder à voz, uma aura quase estelar, que viaja pelos céus noturnos. Pelo menos, foi este o paralelismo que tentei criar, ouvindo-a, ontem à noite, enquanto buscava pelo firmamento, a queda meteórica das estrelas.






Mensagens populares deste blogue

Jorge Machado

Ninguém nunca sabe ao que vem, viver é um ensaio. Dão-nos o que fazer e coisas para que acreditemos e depois ficamos à solta. Dão-nos o nós e a vida de barro, mas há quem faça o que bem entende gostar de fazer. E até há quem o faça muito bem. Ninguém nos explica direito, em pequenos, que as coisas mudam e partem e ausentam-se, e que antes de aqui chegarmos, já o seríamos, mas que tudo se cria e que tudo se nos pode escapar. Carecemos de um olho arguto e atento para captar o que mais conta, até à eternidade. Eu, por boa sorte, tenho um amigo, que por sorte também é o meu melhor amigo, que entende muito bem que há tempos de equívocos, de medo e de combate. Que o mundo, de tão duro e belo até ao fim é mais colectivo se for partilhado em imagens, que nos deixem estarrecidos. O Jó sabe disso de querermos ser felizes, nisso somos mais que irmãos.  E desde catraios entendi nele, o seu lugar exacto. O seu carácter metódico, rigoroso é a pedra de toque da sua vida e da sua paixão, a fotografia. …

Cinco minutos

Assumi escrever isto em cinco minutos, sem tempo para hesitações. É só para esvaziar, para não me deixar soterrar pelas avalanchas da inadequação.  Os meus olhos saltam perdidos entre os grandiosos eventos estivais, apanham respingos das fontes iluminadas com os rostos eleitorais, entram pelas bibliotecas dentro, todas maiores que os meus medos. Param nos cafés lotados de soberba, cheios de viciados em exposição, a transbordarem pelas esplanadas, parecem todos mais cansados que eu com as suas roupinhas de férias.  Tanta feieza e formosura juntas que já não tenho certezas sobre como saber separa-las. Ou se devo. Ou se preciso fazê-lo. Ninguém me mandou andar por aqui, ao acaso, a procurar personagens absurdos. Aqui fora, todas as montras são íntimas, e ninguém mostra vergonha de nada comprar. Aqui fora vêem-se os rostos, olhos nos olhos, enquanto rejeitam de frente. Dói, mas é melhor assim. Durmo e tenho sonhos estranhíssimos em que ajudo pessoas que parecem nem precisar de mim. Afastam-s…

As Crónicas do Senhor Barbosa III

O Senhor Barbosa acredita que já nada o pode magoar. Nem o desprezo passado, presente ou futuro, nem o cão esgalgado da vizinha, de dentes longos, nem a hesitação insípida do amor mais ou menos alvoroçado, nem a morte, nem nada. Nada mais lhe poderá acontecer de tragédia inventada. Já outros a inventaram por si. Olha para os reflexos e sabe que isto é de uma tal arrogância que até lhe faz doer os dentes postiços. Ri-se e prossegue a acreditar na sua recém-criada fortaleza inexpugnável. Mas, o Senhor Barbosa não fecha os olhos debalde, e sabe que, em tempos difíceis, às vezes é preciso morder a laranja para a poder descascar. Nada significa o que quer que seja até ao dia seguinte, altura em que voltamos a fazer contas à vida. É quando o riso cessa. Sabe isto e mesmo assim ri. Porque não? Está tão bêbado que outra coisa não lhe ocorreria fazer. O que é difícil é ultrapassar a espera pelo dia seguinte. Ali estava outra vez o ruído. Aquele ruído frio, cortante, vertical, que tão bem conheci…