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A recta do Aqueduto



Não passa um dia inteiro sem me cortar em duas metades tão inexactas. Uma é o que consigo ser, a outra, aquilo que sou. 
Vinte e quatro horas depois, recomeço a decepar as mesmas ideias em duas, depois de tantos cortes em pares infinitos, já me perdi nalguma metade antiga, há muitos anos atrás. Tornei-me achatado, uma figura bi-dimensional, já me chamaram de segmento de recta.
São sempre as mesmas relações partidas longitudinalmente, as mesmas fendidas frustrações, os mesmos medos divididos. Parece que vou sobrevivendo com uma faca afiada na cabeça, cortando em linha direita a possibilidade de um futuro diferente. Estou tão cansado!
O pior é ser tudo um corte simulado. Não vejo ponta de guelra em lado algum, não sinto sangue a escorrer por nenhum lado. É árido isto. Longe de ser fresco. 
Vou procurar todas as metades esquecidas e fazer o puzzle de mim. Um dia serei um quadro emoldurado fora desta minha janela rachada.

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