Avançar para o conteúdo principal

No fim, as flores...


Irei desaparecer
até que o meu corpo seja pisado,
como caules de flores apáticas.
Levarei comigo o sol,
nos olhos,
e saltarei para um ar mais maduro.
Algures, por onde nunca viajei,
cheio de gratidão por ser além,
que aqui, ainda vivo,
e dói tanto tentar abrir os olhos.
Ainda que, os mantenha cerrados
em protesto,
contra o peso da escuridão.
Estes olhos fecharam-se no seu próprio silêncio,
longe, longe dos silêncios que tinham abertos.
E por cada frágil gesto que lhes façam,
ou por mais brutos que estes sejam,
nada, jamais os tocará tanto assim,
talvez por estarem agora tão perto do chão
ou talvez que,
nas curvas adormecidas desse meu corpo,
entrem dedos contrabandistas, de delicada mestria
abrindo-me os olhos, pétala sobre pétala,
como a primavera abre
a eterna devassidão florida, renovada.
O mais simples dos toques
completar-me-á todo o mistério,
estando a carne já descomposta, já corrompida pela terra,
inexistente já,
resta-me o sol no olhar,
e o poder da intensa fragilidade de um leve roçar.
Depois,
mil anos depois,
voltarei a aparecer,
subitamente, maravilhosamente,
a saltar, aqui e ali,
por entre flores claramente mais promissoras.




Mensagens populares deste blogue

Jorge Machado

Ninguém nunca sabe ao que vem, viver é um ensaio. Dão-nos o que fazer e coisas para que acreditemos e depois ficamos à solta. Dão-nos o nós e a vida de barro, mas há quem faça o que bem entende gostar de fazer. E até há quem o faça muito bem. Ninguém nos explica direito, em pequenos, que as coisas mudam e partem e ausentam-se, e que antes de aqui chegarmos, já o seríamos, mas que tudo se cria e que tudo se nos pode escapar. Carecemos de um olho arguto e atento para captar o que mais conta, até à eternidade. Eu, por boa sorte, tenho um amigo, que por sorte também é o meu melhor amigo, que entende muito bem que há tempos de equívocos, de medo e de combate. Que o mundo, de tão duro e belo até ao fim é mais colectivo se for partilhado em imagens, que nos deixem estarrecidos. O Jó sabe disso de querermos ser felizes, nisso somos mais que irmãos.  E desde catraios entendi nele, o seu lugar exacto. O seu carácter metódico, rigoroso é a pedra de toque da sua vida e da sua paixão, a fotografia. …

Dia sim, dia não, uma beleza antiga.

Peido, logo existo!

Hoje, o Homem exalta-se a si mesmo constantemente.

Confesso que nunca me pensei como um moralista de bastidor, daqueles provedores de sofá que despejam dislates em frente ao televisor, e depois, insatisfeitos, rumam às redes sociais a mostrar ao mundo como a cabeça lhes chegou aos dedos. Ontem apercebi-me que sou. É uma idiossincrasia quetalvez me tenha chegado com a idade. Certas noções de certo e errado começam finalmente a assentar cá dentro.  Todos sabemos sobre o terrível incêndio, sobre as vítimas, a indefinição de culpabilidade, os deslizes da, por vezes, muito pobre comunicação social que os acompanhou. Todos já sabemos tudo sobre isto, demasiado quiçá. Por altura destes tempos imediatos, nem o mero escapar de um gás de algum mosquito se livra do escrutínio continuado e multi-interpretado. É assim que são as coisas agora. Muito úteis a espaços, em momentos e situações que de outro modo passariam despercebidas da maioria, como revoluções, catástrofes, violações dos direitos hu…