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Al Cristo

Al Cristo era suposto ter sido gémeo, mas, absorveu uma parte inútil da irmã, estando a existência desta pendente na barriga de aluguer que os desenvolvia a ambos, até ser quase totalmente digerida. Assim, Al nasceu com dois apêndices, cresceram-lhe dois pares de amigdalas e uma cauda vestigial, que escondia bem apertada, com um pano, sempre que não lhe apetecia brincar.
No estranho bando onde vivia, não era difícil distingui-lo dos outros, não fossem as suas origens que lhe puseram a pele escura e os modos violentos, não só historicamente mas na biologia também. A sua cor concedia-lhe uma espécie de bússola interna, que, posta perante qualquer questão que fosse, lhe reorientava a identidade sempre para o mesmo lado.
No ano em que morreu o Chet Baker, Al ainda tinha cara suficiente para um caixão aberto, graças à geografia que herdou, e que é a mais religiosa das ciências, sendo isto mais do que mereceria ter mais tarde, sem imaginar nunca a tremenda estupidez de vir a ser expulso daquele grupo por causa de uma merda assim. (...)

Excerto de novo romance: "A Ausência dos Pássaros"


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