Avançar para o conteúdo principal

Al Cristo

Al Cristo era suposto ter sido gémeo, mas, absorveu uma parte inútil da irmã, estando a existência desta pendente na barriga de aluguer que os desenvolvia a ambos, até ser quase totalmente digerida. Assim, Al nasceu com dois apêndices, cresceram-lhe dois pares de amigdalas e uma cauda vestigial, que escondia bem apertada, com um pano, sempre que não lhe apetecia brincar.
No estranho bando onde vivia, não era difícil distingui-lo dos outros, não fossem as suas origens que lhe puseram a pele escura e os modos violentos, não só historicamente mas na biologia também. A sua cor concedia-lhe uma espécie de bússola interna, que, posta perante qualquer questão que fosse, lhe reorientava a identidade sempre para o mesmo lado.
No ano em que morreu o Chet Baker, Al ainda tinha cara suficiente para um caixão aberto, graças à geografia que herdou, e que é a mais religiosa das ciências, sendo isto mais do que mereceria ter mais tarde, sem imaginar nunca a tremenda estupidez de vir a ser expulso daquele grupo por causa de uma merda assim. (...)

Excerto de novo romance: "A Ausência dos Pássaros"


Mensagens populares deste blogue

Dia sim, dia não, uma beleza antiga.

Peido, logo existo!

Hoje, o Homem exalta-se a si mesmo constantemente.

Confesso que nunca me pensei como um moralista de bastidor, daqueles provedores de sofá que despejam dislates em frente ao televisor, e depois, insatisfeitos, rumam às redes sociais a mostrar ao mundo como a cabeça lhes chegou aos dedos. Ontem apercebi-me que sou. É uma idiossincrasia quetalvez me tenha chegado com a idade. Certas noções de certo e errado começam finalmente a assentar cá dentro.  Todos sabemos sobre o terrível incêndio, sobre as vítimas, a indefinição de culpabilidade, os deslizes da, por vezes, muito pobre comunicação social que os acompanhou. Todos já sabemos tudo sobre isto, demasiado quiçá. Por altura destes tempos imediatos, nem o mero escapar de um gás de algum mosquito se livra do escrutínio continuado e multi-interpretado. É assim que são as coisas agora. Muito úteis a espaços, em momentos e situações que de outro modo passariam despercebidas da maioria, como revoluções, catástrofes, violações dos direitos hu…

A Sorte posta a Nu

Excerto de um dos contos do meu último livro: "Estórias de Amor para Desempregados
 - Se quiserem, se tiverem tempo, paciência, curiosidade, loucura sadia ou se forem simplesmente audazes por natureza, cliquem no link e descubram-no. Só se vende aqui, desculpem! Eu tento, mas não tenho estofo nenhum para o marketing, nenhum. Escrevo o que me apetece e não desisto disso. Ao menos uma parte da minha vida parece-me indestrutível. Espero que gostem. (bolas, isto soou tão desesperado!) Se não gostarem digam-me porquê. Preciso de contacto humano, sobretudo se for construtivo. Se gostarem, digam-me na mesma. Preciso também de qualquer tipo de provocação sorridente. -
(....) Começou com um grito inenarrável da Josefina. Um grito estridente de vitória que pareceu inoportuno, quase despropositado, embora totalmente justificado. E foi como se o céu rebentasse. Terá sido somente a constante falta de oportunidades que nos assolava a todos, que o fez destoar daquele silêncio pegajoso d…