Avançar para o conteúdo principal

A Noite em que Gershwin me salvou - I


A casa paroquial ficava a meio caminho de uma encosta íngreme que exigia um sprint intermédio até ao final. Era no topo de um bairro pobre, desconjuntado, com a melodia cadenciada de todas as ruas estreitas mais abaixo, a convergirem daí nos dias de chuva. Havia um terreiro de saibro na parte de trás, atapetado com paletes de madeira e musgo vivo, desenfreado, coberto de teimosia com uma só chapa de zinco, tão bem aparafusada, que morreria de pé mesmo que tudo se afundasse em redor.
Era meia-noite fria, frágil e exausto, Plínio Monteiro sabia que metade da paz estava em não a desmentir nunca. Pensava nisto enquanto varria a pequena enxurrada de lixo trazido pela chuva, com uma vassoura de piaçás desmaiados. A outra metade era um exercício precário de compreensão. Só isto. O papel de ambos era evidente naquela relação; ele conseguia as coisas, ela mantinha-as por perto. Não tinham filhos e suportavam esse vil lapso da natureza sem se recriminarem. Assim ela o julgava pelo menos. Plínio, mais do que tudo, desejava era deixar semente sua neste mundo, marco derradeiro de uma vida sem importância, mas ela nunca lhe dava arresto a essa vontade, e escapava-se com mezinhas de maus argumentos ao jorro impetuoso da sua intenção.
- Se me amas de verdade, vais deixar-me entrar aí e sair depois, para sempre. – Afirmava ele, quase imperativo.
- Ai meu pombinho excitado, meu poeta esfarrapado, - retorquia - porque insistes tanto? Já te expliquei vezes sem conta. Não quero coisa alguma a crescer-me aqui, - apontava-lhe a sua própria barriga opada de volume – carne alguma que não seja a pouca que já tenho, e esse teu pau de homem macho. Quero-me manter moça e bonita para ti meu pirata, para sempre. – Plínio resignava-se temporariamente, mas depois saltava-lhe tudo.
- Recuso a dar-te ouvidos, isto não fica assim. - Dentro dela, fazia sempre uma cara pantomímica três segundos antes do fim, altura pontual em que ela, brutalmente o empurrava para longe com um murro amoroso ou um pontapé providencial. Aprendera a não confiar demasiado em nenhum homem, quando assim, mais vulnerável se encontrava. Os homens aninham-se bem quando lhes convêm, e ela só o queria ali, dentro de si, pelo tempo exacto que lhe apetecesse. Nada se apegava ao seu útero egoísta, e todos os seus ovos morriam jovens e belos.
Ele, desconsolado, para ali ficava, num canto de terra batida, de pila ao léu e beiças ensimesmadas. O tempo era sempre curto para lhe garantir um futuro. Depois, ia busca-lo de novo, toda sorridente, cobria-o de beijos e enroscava-se nos cartões e nas mantas ao seu lado, por baixo do telheiro, até adormecerem. Mal lhe pressentia o movimento rápido dos olhos, enquanto dormia nos seus braços. Ele chorava a dormir pela noite fora, até de manhã.
Nunca dormia intacto, remexia-lhe a esperança de que qualquer coisa fértil tivesse ficado lá dentro dela, a germinar-lhe uma garantia de existência além-vida. Por vezes observava-a de perto, enquanto ela dormia. O cheiro dizia-lhe que sim, porém, o tacto da intuição desanimava-o.
Nem as ratazanas se aproximavam para lhes pressentir um fim, o padre espalhava veneno pelas redondezas por rotina, como aliás fazia com tudo, de modo que Plínio nunca sabia em que ponto estava do caminho para o seu juízo final. A única certeza de que dispunha era a do amor que ela lhe tinha.
- Espero que hoje me humilhes – dizia Cecília – que me faças sentir um prazer grotesco, violento, selvagem. Ai meu arrombador de corações, esta carne já não representa outro papel que não seja ser toda tua. Espero que lhe faças coisas terríveis antes que o padreco nos expulse daqui de uma vez. Anda cá meu vagabundo lindo.
Na noite seguinte, pela hora do jantar, ao revirar o contentor do lixo, duvidou que aquela tivesse sido a sua última palavra. Pensava que quando uma mulher diz que não fica à espera que insistam antes de tomar a decisão final. E só Deus sabe, quantas decisões finais já lhe haviam sido enganadas. Desde que acabou a viver na rua, Plínio só viu um caminho de saída: A descendência. Era como se o tempo bom saltasse a sua geração e fosse concretizar-se apenas nos anos vindouros, que assistissem à vinda de um filho seu.
Pegam num homem e atiram-no contra o chão, se já houver nele ligações definitivas ao que vai para baixo, ou empurram-no contra as nuvens se nele existir uma matéria mais evasiva que prefira outros estados mais gasosos. Fazem de um homem um vai-e-vem espacial, entre um céu que é horizontal, e um chão de madeira, revirando-o durante o percurso e obrigando-o a ver-se como verdadeiramente é.
- De homens passamos a pedintes, de pedintes tornamo-nos fantasmas. Foda-se!
Costumava definir-se como um intolerante, um badalhoco e um bêbado. Como alguém que já foi todas essas coisas, embora tentasse sempre nunca sê-lo simultaneamente, porque nesses tempos vivia num mundo demasiado ocupado. Agora já não era assim. Quando sofreu o acidente brutal que o atirou para a rua, entendeu finalmente o que sentiram todos aqueles miseráveis segurados a quem investigara as vidas antes da machadada fatal da desgraça. – Vai correr tudo bem. – dizia-lhes. – não deixaremos que nada vos falte nestes momentos difíceis.
Contudo, com ela era diferente, e não parecia haver jeito de gente ou do diabo que lhe mudasse a determinação entranhada. Cecília apareceu-lhe uma madrugada trazida pela mão do padre Josué. Houve quem afirmasse ter sido puta perto do entroncamento da estrada nacional. Nunca o fora, era tudo mentira. Era formada pelo conservatório, esteve até no cartaz gigante do Teatro da Avenida, fez filmes e tudo. Era demasiado bonita para ser uma mulher normal, excessivamente brilhante para trabalhar no escuro da noite. Encontrara-a muitas vezes nas filas do desemprego, naqueles quinze dias intercalados em que obrigam o povo a revalidar a segurança da pulseira electrónica invisível.
Como um tesouro a ser utilizado no momento certo, logo percebeu nela uma energia violenta pronta a entrar em acção. Havia ali potencial para uma grande eternidade. Como no dia em que chegou. Sentou-se ao seu lado num caixote de maças e ficou ali, por um bocado, a ouvir o que o padre lhe dizia. O que ele ansiava era a reacção daquele corpo mais que devassado, ao seu empenho sonhador. Queria um filho porra! Só um.
- Bendito Leandro que nos deixa sempre qualquer coisa para a refeição da noite. – Diz ela.
- O que foi que encontraste?
- Uns restos bons de lasanha. Tão bons como se tivessem sido cozinhados para nós.
- Lasanha! Que elegância. Isso caía tão bem com um Chardonnay, de madeira discreta, se o encontrássemos claro. Um Malvasia, Vermentino ou um Garganega  cumpririam aqui bem o seu papel. Um corpo médio, a eliminar a gordura untuosa dos queijos e do creme de leite.
- Ricalhaço! Mas que falas tão finas. E se eu me besuntar toda de lasanha, aqui, por aqui abaixo, um bocado a escorrer por aqui...hã..ainda te vais por a pensar em vinhos que não te chegam mais ao bico?
- Cecília! Tola, o que tens aí na mão?
- Não é de comer meu fodilhão, só eu é que sou.
- Pára com isso. Mostra lá. O que é?
- Sei lá eu. As coisas que o Leandro descarta não lembram a estes tempos. Parece um filme. Uma daquelas curtas como as que passam no teatro todos os verões, a avaliar pelo comprimento da fita. Não seria engraçado se fosse um dos meus?
- Cecília! Não brinques com coisas sérias.
- Então? Nem deve de ser. O Leandro tem outros gostos mais peludos e espetados. – Riu-se
- Porra mulher...
- Ai, que coisa. Nem se pode brincar agora? É o caralho de uma fita magnética, muito fininha, do teu tempo portanto. Toma lá, é o raio de uma cassete somente. – No entanto Cecília começou a sentir algo no estômago. De início não lhe parecia nada, mas depois deixou-a perplexa. - Estou esfaimada meu pintainho, e se esquecêssemos os magros filmes e atacássemos a lasanha untosa?
- Um filme dizes tu?
- Película meu querido, magnética, dizem, mas não lhe sinto atração alguma, engambelada em camadas como se fosse lasanha. Já se me cresce a água na boca. Comemos aqui ou embrulhamos para levar? – Riu-se outra vez.
- Essa agora. – Exclama ele. – Deixa-me ver isso.
- Quer me parecer, que hoje temos jantar, cinema e pinanço Plínio. Só nos falta encontrar um desses benditos vinhos estrangeiros para te por mais a modos.
Orgulho, repetia-lhe por diversas vezes. Nunca percas o orgulho Cecília. É tudo o que nos basta para nos mantermos sãos.
- Deixa cá ver então. Que ridículo. – Apeteceu-lhe dar uma gargalhada também. – Isto é uma cassete daquelas antigas. Um cartucho, melhor dizendo. Pode até nem ter imagem alguma. Aliás, tenho quase a certeza que não. Isto é um cartucho de música.
- E então Plínio, hoje fodemos antes ou depois do filme?
- Cala-te lá com isso. Que inferno. Olha, vês? Está aqui escrito nesta etiqueta quase apagada: Ger... Gershwin! – Muito bom. É o “Porgy and Bess”, Meu deus! Acho que irias adorar ouvir isto.
- Música dás-me tu. Esqueces-te que tive uma vida antes de estar contigo?
- Não. Não me esqueci disso.
- Então?
- Então o quê?
- Então vai à merda, pronto. Guarda lá o teu palimpsesto musical e vai-te foder sozinho hoje à noite.
- Somos transparentes agora Cecília, invisíveis ao mundo, e isso é a parte que nos toca na ordem natural das coisas. Que coisa! Adianta contrariar o presente com imagens do passado? Isto que tenho na minha mão, isto, é pura magia.
- Tu até podes ser, eu gosto de foder. Neste caso podes contar em foderes com Gershwin, o mágico, esta noite, porque daqui não levas nada.
- Não, chiça mulher... Mas que raio, nem estou a falar disso sequer. Que raio!

Mensagens populares deste blogue

Dia sim, dia não, uma beleza antiga.

Peido, logo existo!

Hoje, o Homem exalta-se a si mesmo constantemente.

Confesso que nunca me pensei como um moralista de bastidor, daqueles provedores de sofá que despejam dislates em frente ao televisor, e depois, insatisfeitos, rumam às redes sociais a mostrar ao mundo como a cabeça lhes chegou aos dedos. Ontem apercebi-me que sou. É uma idiossincrasia quetalvez me tenha chegado com a idade. Certas noções de certo e errado começam finalmente a assentar cá dentro.  Todos sabemos sobre o terrível incêndio, sobre as vítimas, a indefinição de culpabilidade, os deslizes da, por vezes, muito pobre comunicação social que os acompanhou. Todos já sabemos tudo sobre isto, demasiado quiçá. Por altura destes tempos imediatos, nem o mero escapar de um gás de algum mosquito se livra do escrutínio continuado e multi-interpretado. É assim que são as coisas agora. Muito úteis a espaços, em momentos e situações que de outro modo passariam despercebidas da maioria, como revoluções, catástrofes, violações dos direitos hu…

A Sorte posta a Nu

Excerto de um dos contos do meu último livro: "Estórias de Amor para Desempregados
 - Se quiserem, se tiverem tempo, paciência, curiosidade, loucura sadia ou se forem simplesmente audazes por natureza, cliquem no link e descubram-no. Só se vende aqui, desculpem! Eu tento, mas não tenho estofo nenhum para o marketing, nenhum. Escrevo o que me apetece e não desisto disso. Ao menos uma parte da minha vida parece-me indestrutível. Espero que gostem. (bolas, isto soou tão desesperado!) Se não gostarem digam-me porquê. Preciso de contacto humano, sobretudo se for construtivo. Se gostarem, digam-me na mesma. Preciso também de qualquer tipo de provocação sorridente. -
(....) Começou com um grito inenarrável da Josefina. Um grito estridente de vitória que pareceu inoportuno, quase despropositado, embora totalmente justificado. E foi como se o céu rebentasse. Terá sido somente a constante falta de oportunidades que nos assolava a todos, que o fez destoar daquele silêncio pegajoso d…